Como fazer o inventário de riscos psicossociais no PGR: passo a passo

Por Danilo Miguel 7 min de leitura
Neste artigo
  1. O que é o inventário de riscos
  2. Etapa 1: Planejamento
  3. Etapa 2: Levantamento de indicadores
  4. Etapa 3: Escuta dos trabalhadores
  5. Etapa 4: Identificação dos perigos
  6. Etapa 5: Avaliação e classificação do risco
  7. Etapa 6: Plano de ação
  8. Exemplo de linha do inventário preenchida
  9. Quem deve participar
  10. Com que frequência revisar
  11. Etapa 7: Devolutiva, monitoramento e revisão
  12. Checklist rápido
  13. Precisa de apoio?

Incluir os riscos psicossociais no PGR é a principal exigência da nova NR-1 e também a que mais gera dúvidas. Como “medir” sobrecarga ou conflito? Que método usar? Como registrar? Neste artigo, apresento um roteiro prático, aplicável a empresas de pequeno e médio porte.

Antes de começar

Se você ainda não conhece o contexto da norma, leia primeiro o guia completo sobre NR-1 e riscos psicossociais.

O que é o inventário de riscos

O inventário de riscos é o documento do PGR que registra os perigos identificados na empresa, a avaliação de cada risco e as informações necessárias para controlá-lo. A NR-1 pede, entre outros elementos, a caracterização dos processos e ambientes de trabalho, a descrição dos perigos e de suas possíveis consequências, as medidas de prevenção já existentes e a classificação dos riscos para definir prioridades.

Para os fatores psicossociais, a lógica é a mesma. O que muda são as fontes de informação e a forma de identificar os perigos.

Etapa 1: Planejamento

Defina, com a direção, o RH e o responsável pelo PGR:

  • Escopo: quais setores, funções e unidades serão avaliados.
  • Grupos de exposição: agrupe trabalhadores com atividades e condições semelhantes (por exemplo: atendimento, produção, administrativo, liderança).
  • Método: quais instrumentos e técnicas serão usados.
  • Comunicação: como a equipe será informada sobre o objetivo, a confidencialidade e o retorno dos resultados.

A comunicação é decisiva. Se as pessoas acharem que a avaliação serve para “caçar culpados”, não falarão a verdade.

Etapa 2: Levantamento de indicadores

Antes de ouvir a equipe, organize os dados que a empresa já possui, separados por setor e pelos últimos 12 meses:

Indicador O que pode revelar
Atestados e faltas Concentração em setores específicos, aumento de atestados curtos e repetidos.
Afastamentos acima de 15 dias Casos de adoecimento mais grave, inclusive por transtornos mentais.
Turnover e pedidos de demissão Setores ou lideranças que “expulsam” pessoas.
Horas extras e banco de horas Sobrecarga crônica e falta de dimensionamento da equipe.
Reclamações, denúncias e conflitos Problemas de relacionamento, assédio e comunicação.
Erros, retrabalho e acidentes Pressão excessiva, fadiga e falta de atenção.

Etapa 3: Escuta dos trabalhadores

A NR-1 valoriza a participação dos trabalhadores no gerenciamento de riscos. Na dimensão psicossocial, a escuta é indispensável. As principais técnicas são:

Questionários

Existem instrumentos reconhecidos internacionalmente para avaliar fatores psicossociais, como o COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire) e escalas de demanda, controle e apoio no trabalho. O guia do Ministério do Trabalho não impõe um instrumento específico. O importante é escolher algo adequado, aplicar de forma anônima e interpretar com critério técnico.

Entrevistas e grupos de escuta

Os números mostram onde está o problema; as conversas mostram por quê. Grupos pequenos, conduzidos por profissional neutro e sem a presença da chefia direta, costumam trazer as informações mais valiosas.

Observação do trabalho

Acompanhar a rotina real (e não a descrita no papel) ajuda a identificar interrupções constantes, pressão de tempo, falta de recursos e conflitos entre áreas.

Etapa 4: Identificação dos perigos

Com os dados em mãos, descreva os perigos psicossociais de cada grupo de exposição. Seja específico. Compare:

Genérico (evite)

“Estresse no setor de atendimento.”

Específico (prefira)

“Metas diárias de atendimento revisadas para cima sem aumento de equipe; atendimento a clientes agressivos sem protocolo de apoio.”

Para cada perigo, registre também as possíveis consequências (ansiedade, esgotamento, afastamentos, conflitos) e as medidas de prevenção já existentes.

Etapa 5: Avaliação e classificação do risco

A forma mais comum é a matriz de probabilidade × severidade. Um exemplo simplificado:

Critério Baixa (1) Média (2) Alta (3)
Probabilidade Situação rara, poucos relatos. Ocorre com alguma frequência ou em parte da equipe. Frequente, relatada pela maioria, com indicadores alterados.
Severidade Desconforto passageiro. Sofrimento persistente, faltas, queda de desempenho. Adoecimento, afastamentos, assédio, risco de dano grave.

Multiplicando os dois valores, obtém-se o nível de risco (de 1 a 9), que define a prioridade de ação. Riscos com nível alto exigem medidas imediatas.

Etapa 6: Plano de ação

Para cada risco relevante, o plano de ação deve indicar o que será feito, quem é o responsável, o prazo e como o resultado será acompanhado. Siga a lógica da hierarquia de controle: primeiro, eliminar ou reduzir o perigo na origem; depois, medidas organizacionais; por último, ações individuais.

Perigo Medida Responsável Prazo Indicador
Sobrecarga no setor financeiro Revisar distribuição de tarefas e prioridades do fechamento mensal Gerente financeiro 60 dias Horas extras do setor
Conflito recorrente entre vendas e logística Mediação entre lideranças e acordo de fluxo de pedidos RH + consultor 30 dias Ocorrências de conflito
Cobranças agressivas da liderança Programa de desenvolvimento de líderes e canal de escuta Direção 90 dias Pesquisa de clima e denúncias

Exemplo de linha do inventário preenchida

Para visualizar o resultado, veja como um único risco pode ser registrado no inventário (exemplo didático):

Campo Registro
Grupo de exposição Atendimento ao cliente (6 colaboradores)
Perigo Contato frequente com clientes agressivos, sem protocolo de apoio nem possibilidade de pausa após atendimentos difíceis
Fontes de informação Questionário (78% relatam desgaste emocional alto), grupo de escuta, 14 atestados curtos no semestre
Possíveis consequências Ansiedade, esgotamento, afastamentos, rotatividade no setor
Medidas existentes Nenhuma formalizada
Probabilidade × severidade 3 × 2 = 6 (risco alto)
Prioridade Ação em até 30 dias

Perceba que o registro descreve a condição de trabalho, não as pessoas. Ninguém é identificado, e a medida de prevenção decorre naturalmente da descrição do perigo: criar um protocolo para clientes agressivos, permitir pausas curtas após atendimentos críticos e preparar a liderança para dar suporte.

Quem deve participar

O inventário psicossocial não é tarefa de uma pessoa só. Os melhores resultados aparecem quando o processo envolve:

  • Direção: para garantir recursos e legitimidade às ações;
  • RH: que detém os indicadores e conhece o histórico das equipes;
  • Responsável pelo PGR: que integra os riscos psicossociais ao programa e à metodologia já adotada;
  • Profissional com formação em comportamento humano: para conduzir escutas, interpretar os dados e propor intervenções adequadas;
  • Trabalhadores e CIPA (quando houver): que vivem a realidade do trabalho e precisam ser ouvidos e informados.

Com que frequência revisar

A NR-1 determina que a avaliação de riscos seja revista periodicamente e sempre que houver mudanças que possam alterar os riscos. No caso dos fatores psicossociais, alguns gatilhos merecem atenção especial: troca de lideranças, crescimento ou redução brusca da equipe, novas metas comerciais, mudanças de turno ou de modelo de trabalho (presencial, híbrido, remoto), fusões e reestruturações e, claro, sinais de alerta nos indicadores, como aumento de atestados ou de pedidos de demissão em determinado setor.

Etapa 7: Devolutiva, monitoramento e revisão

Apresente os resultados gerais à equipe e informe as ações que serão tomadas. Isso fortalece a confiança e aumenta a participação nas próximas avaliações. Depois, acompanhe os indicadores e reavalie os riscos periodicamente e sempre que houver mudanças relevantes, como reestruturações, troca de lideranças, novos processos ou aumento de demanda.

Checklist rápido

  • Escopo e grupos de exposição definidos
  • Indicadores dos últimos 12 meses levantados por setor
  • Escuta confidencial realizada (questionário e/ou entrevistas)
  • Perigos descritos de forma específica, com consequências e controles existentes
  • Riscos classificados por probabilidade e severidade
  • Plano de ação com responsáveis, prazos e indicadores
  • Devolutiva feita à equipe
  • Evidências arquivadas (relatórios, atas, listas de presença)

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Referências

  1. NR-1: Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, com redação da Portaria MTE nº 1.419/2024.
  2. Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho, 2025.
  3. Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ): instrumento de avaliação de fatores psicossociais no trabalho.

Os modelos de matriz e plano de ação são exemplos didáticos e devem ser adaptados à metodologia adotada no PGR de cada empresa.

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