Incluir os riscos psicossociais no PGR é a principal exigência da nova NR-1 e também a que mais gera dúvidas. Como “medir” sobrecarga ou conflito? Que método usar? Como registrar? Neste artigo, apresento um roteiro prático, aplicável a empresas de pequeno e médio porte.
Se você ainda não conhece o contexto da norma, leia primeiro o guia completo sobre NR-1 e riscos psicossociais.
O que é o inventário de riscos
O inventário de riscos é o documento do PGR que registra os perigos identificados na empresa, a avaliação de cada risco e as informações necessárias para controlá-lo. A NR-1 pede, entre outros elementos, a caracterização dos processos e ambientes de trabalho, a descrição dos perigos e de suas possíveis consequências, as medidas de prevenção já existentes e a classificação dos riscos para definir prioridades.
Para os fatores psicossociais, a lógica é a mesma. O que muda são as fontes de informação e a forma de identificar os perigos.
Etapa 1: Planejamento
Defina, com a direção, o RH e o responsável pelo PGR:
- Escopo: quais setores, funções e unidades serão avaliados.
- Grupos de exposição: agrupe trabalhadores com atividades e condições semelhantes (por exemplo: atendimento, produção, administrativo, liderança).
- Método: quais instrumentos e técnicas serão usados.
- Comunicação: como a equipe será informada sobre o objetivo, a confidencialidade e o retorno dos resultados.
A comunicação é decisiva. Se as pessoas acharem que a avaliação serve para “caçar culpados”, não falarão a verdade.
Etapa 2: Levantamento de indicadores
Antes de ouvir a equipe, organize os dados que a empresa já possui, separados por setor e pelos últimos 12 meses:
| Indicador | O que pode revelar |
|---|---|
| Atestados e faltas | Concentração em setores específicos, aumento de atestados curtos e repetidos. |
| Afastamentos acima de 15 dias | Casos de adoecimento mais grave, inclusive por transtornos mentais. |
| Turnover e pedidos de demissão | Setores ou lideranças que “expulsam” pessoas. |
| Horas extras e banco de horas | Sobrecarga crônica e falta de dimensionamento da equipe. |
| Reclamações, denúncias e conflitos | Problemas de relacionamento, assédio e comunicação. |
| Erros, retrabalho e acidentes | Pressão excessiva, fadiga e falta de atenção. |
Etapa 3: Escuta dos trabalhadores
A NR-1 valoriza a participação dos trabalhadores no gerenciamento de riscos. Na dimensão psicossocial, a escuta é indispensável. As principais técnicas são:
Questionários
Existem instrumentos reconhecidos internacionalmente para avaliar fatores psicossociais, como o COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire) e escalas de demanda, controle e apoio no trabalho. O guia do Ministério do Trabalho não impõe um instrumento específico. O importante é escolher algo adequado, aplicar de forma anônima e interpretar com critério técnico.
Entrevistas e grupos de escuta
Os números mostram onde está o problema; as conversas mostram por quê. Grupos pequenos, conduzidos por profissional neutro e sem a presença da chefia direta, costumam trazer as informações mais valiosas.
Observação do trabalho
Acompanhar a rotina real (e não a descrita no papel) ajuda a identificar interrupções constantes, pressão de tempo, falta de recursos e conflitos entre áreas.
Etapa 4: Identificação dos perigos
Com os dados em mãos, descreva os perigos psicossociais de cada grupo de exposição. Seja específico. Compare:
Genérico (evite)
“Estresse no setor de atendimento.”
Específico (prefira)
“Metas diárias de atendimento revisadas para cima sem aumento de equipe; atendimento a clientes agressivos sem protocolo de apoio.”
Para cada perigo, registre também as possíveis consequências (ansiedade, esgotamento, afastamentos, conflitos) e as medidas de prevenção já existentes.
Etapa 5: Avaliação e classificação do risco
A forma mais comum é a matriz de probabilidade × severidade. Um exemplo simplificado:
| Critério | Baixa (1) | Média (2) | Alta (3) |
|---|---|---|---|
| Probabilidade | Situação rara, poucos relatos. | Ocorre com alguma frequência ou em parte da equipe. | Frequente, relatada pela maioria, com indicadores alterados. |
| Severidade | Desconforto passageiro. | Sofrimento persistente, faltas, queda de desempenho. | Adoecimento, afastamentos, assédio, risco de dano grave. |
Multiplicando os dois valores, obtém-se o nível de risco (de 1 a 9), que define a prioridade de ação. Riscos com nível alto exigem medidas imediatas.
Etapa 6: Plano de ação
Para cada risco relevante, o plano de ação deve indicar o que será feito, quem é o responsável, o prazo e como o resultado será acompanhado. Siga a lógica da hierarquia de controle: primeiro, eliminar ou reduzir o perigo na origem; depois, medidas organizacionais; por último, ações individuais.
| Perigo | Medida | Responsável | Prazo | Indicador |
|---|---|---|---|---|
| Sobrecarga no setor financeiro | Revisar distribuição de tarefas e prioridades do fechamento mensal | Gerente financeiro | 60 dias | Horas extras do setor |
| Conflito recorrente entre vendas e logística | Mediação entre lideranças e acordo de fluxo de pedidos | RH + consultor | 30 dias | Ocorrências de conflito |
| Cobranças agressivas da liderança | Programa de desenvolvimento de líderes e canal de escuta | Direção | 90 dias | Pesquisa de clima e denúncias |
Exemplo de linha do inventário preenchida
Para visualizar o resultado, veja como um único risco pode ser registrado no inventário (exemplo didático):
| Campo | Registro |
|---|---|
| Grupo de exposição | Atendimento ao cliente (6 colaboradores) |
| Perigo | Contato frequente com clientes agressivos, sem protocolo de apoio nem possibilidade de pausa após atendimentos difíceis |
| Fontes de informação | Questionário (78% relatam desgaste emocional alto), grupo de escuta, 14 atestados curtos no semestre |
| Possíveis consequências | Ansiedade, esgotamento, afastamentos, rotatividade no setor |
| Medidas existentes | Nenhuma formalizada |
| Probabilidade × severidade | 3 × 2 = 6 (risco alto) |
| Prioridade | Ação em até 30 dias |
Perceba que o registro descreve a condição de trabalho, não as pessoas. Ninguém é identificado, e a medida de prevenção decorre naturalmente da descrição do perigo: criar um protocolo para clientes agressivos, permitir pausas curtas após atendimentos críticos e preparar a liderança para dar suporte.
Quem deve participar
O inventário psicossocial não é tarefa de uma pessoa só. Os melhores resultados aparecem quando o processo envolve:
- Direção: para garantir recursos e legitimidade às ações;
- RH: que detém os indicadores e conhece o histórico das equipes;
- Responsável pelo PGR: que integra os riscos psicossociais ao programa e à metodologia já adotada;
- Profissional com formação em comportamento humano: para conduzir escutas, interpretar os dados e propor intervenções adequadas;
- Trabalhadores e CIPA (quando houver): que vivem a realidade do trabalho e precisam ser ouvidos e informados.
Com que frequência revisar
A NR-1 determina que a avaliação de riscos seja revista periodicamente e sempre que houver mudanças que possam alterar os riscos. No caso dos fatores psicossociais, alguns gatilhos merecem atenção especial: troca de lideranças, crescimento ou redução brusca da equipe, novas metas comerciais, mudanças de turno ou de modelo de trabalho (presencial, híbrido, remoto), fusões e reestruturações e, claro, sinais de alerta nos indicadores, como aumento de atestados ou de pedidos de demissão em determinado setor.
Etapa 7: Devolutiva, monitoramento e revisão
Apresente os resultados gerais à equipe e informe as ações que serão tomadas. Isso fortalece a confiança e aumenta a participação nas próximas avaliações. Depois, acompanhe os indicadores e reavalie os riscos periodicamente e sempre que houver mudanças relevantes, como reestruturações, troca de lideranças, novos processos ou aumento de demanda.
Checklist rápido
- Escopo e grupos de exposição definidos
- Indicadores dos últimos 12 meses levantados por setor
- Escuta confidencial realizada (questionário e/ou entrevistas)
- Perigos descritos de forma específica, com consequências e controles existentes
- Riscos classificados por probabilidade e severidade
- Plano de ação com responsáveis, prazos e indicadores
- Devolutiva feita à equipe
- Evidências arquivadas (relatórios, atas, listas de presença)
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Referências
- NR-1: Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, com redação da Portaria MTE nº 1.419/2024.
- Ministério do Trabalho e Emprego. Guia de Informações sobre os Fatores de Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho, 2025.
- Copenhagen Psychosocial Questionnaire (COPSOQ): instrumento de avaliação de fatores psicossociais no trabalho.
Os modelos de matriz e plano de ação são exemplos didáticos e devem ser adaptados à metodologia adotada no PGR de cada empresa.